ORGÂNICO: o último pilar do solo vivo

Antes de nascer uma floresta, alguma coisa precisou morrer ali.
Parece contraditório, mas pensa na história que contamos até aqui.
Começamos com a pedra. Vimos como rochas e minerais são transformados pelo tempo, pela água e por diferentes processos que acontecem no ambiente. Depois, descobrimos que a vida entrou nessa história muito antes de existir uma floresta e que fungos, bactérias, plantas e tantos outros organismos passaram a ocupar e transformar aquele lugar.
“Que a tua vida não seja uma vida estéril. - Sê útil. - Deixa rasto.”
São Josemaria Escrivá - (Caminho 1)
Uma planta cresce e produz raízes, folhas e outros tecidos. Organismos vivem naquele ambiente, se alimentam, deixam resíduos e secreções e em algum momento morrem. Aos poucos, aquilo que estava vivo começa a permanecer no ambiente de outra forma.
A vida sempre deixa rastro por onde passa
E é assim que chegamos ao nosso último pilar:
ORGÂNICO.
Tudo aquilo que a vida deixa pelo caminho
Quando falamos em orgânico no cultivo, é fácil pensar imediatamente em “adubo orgânico”. Só que estamos falando de algo muito maior.
Matéria orgânica pode ter diversas origens e se apresentar em diferentes estágios de transformação. Uma folha recém-caída, uma raiz morta, resíduos animais, organismos mortos, composto maturado e húmus não são a mesma coisa, mas todos fazem parte dessa história.
Até materiais que utilizamos como substrato “inerte” podem ter origem orgânica. A fibra de coco veio de uma planta. A casca de arroz também. A turfa é formada pelo acúmulo de material vegetal parcialmente decomposto em determinadas condições ambientais ao longo de períodos enormes.
Por isso, quando falamos em orgânico, não estamos falando de um produto específico. Estamos olhando para a matéria produzida pela vida e para tudo o que acontece com ela depois que entra no solo.
E essa matéria pode ocupar uma parcela relativamente pequena do solo, mas exerce uma influência enorme sobre seu funcionamento.
Aqueles famosos 5%
Existe um modelo didático bastante utilizado para representar a composição de um solo mineral em boas condições. Nele, encontramos aproximadamente 45% de material mineral, 25% de água, 25% de ar e 5% de matéria orgânica.
Esses números não são uma receita para montar solo e muito menos significam que todos os solos do planeta possuem exatamente essa composição. As proporções variam com profundidade, clima, vegetação, tipo de solo, umidade, manejo e diversas outras condições.
O modelo é interessante porque ajuda a visualizar uma coisa: uma fração relativamente pequena de matéria orgânica pode exercer uma influência enorme no sistema.
A matéria orgânica participa da formação e da estabilidade dos agregados do solo, interfere na relação entre partículas, poros, água e ar, contribui para a retenção de água e interage com nutrientes e superfícies minerais. Ao mesmo tempo, fornece recursos para uma comunidade enorme de organismos e mantém elementos circulando conforme é transformada.
Aqueles “5%”, portanto, não contam a história pelo tamanho que ocupam.
Contam pelo que fazem.
A vida também deixou carbono
Para entender melhor essa matéria, precisamos voltar um pouco e acompanhar um elemento que esteve presente durante boa parte da nossa história sem receber tanta atenção: o carbono.
Enquanto cresce, uma planta retira dióxido de carbono da atmosfera durante a fotossíntese. Parte desse carbono é incorporada aos compostos que formam folhas, caules, raízes, frutos e outros tecidos.
Aquela planta que conquistou a terra não estava apenas retirando elementos minerais do solo.
Ela também estava capturando carbono da atmosfera e construindo matéria.
Quando uma folha cai, uma raiz morre ou outro material vegetal retorna ao ambiente, parte desse carbono entra junto. A partir daí, ele pode seguir caminhos diferentes: ser utilizado por organismos, retornar à atmosfera através da respiração ou permanecer associado ao solo por períodos variados.
Não precisamos acompanhar cada átomo de carbono para entender o que importa aqui. A vida captura carbono, constrói matéria e parte dessa matéria retorna ao solo.
E, quando retorna, encontra justamente aquela comunidade que conhecemos no último capítulo.
O que morre não fica parado
Uma folha caiu.
A história dela não terminou.
Fungos, bactérias e outros organismos começam a utilizar e transformar aquele material. Compostos são quebrados, parte do carbono é utilizada no metabolismo desses organismos e elementos presentes naquela matéria continuam circulando.
É aqui que aparecem dois processos importantes para entender um solo vivo: decomposição e mineralização.
A decomposição envolve a transformação da matéria orgânica por processos físicos, químicos e biológicos. Durante essa transformação, compostos complexos podem ser quebrados e utilizados por diferentes organismos.
Já a mineralização ajuda a explicar um ponto que conecta este blog diretamente ao primeiro: elementos que estavam incorporados em compostos orgânicos podem retornar a formas inorgânicas e continuar participando da dinâmica de nutrientes do solo.
Pensa novamente naquela folha.
Enquanto estava na planta, ela carregava nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e diversos outros elementos. Quando cai, esses elementos não desaparecem. Eles continuam presentes naquela matéria e podem voltar a circular conforme ela é transformada.
Agora conseguimos enxergar algo que, lá no primeiro conteúdo, ainda estava incompleto.
O mineral entrou na vida.
A vida produziu matéria.
E essa matéria começou a devolver elementos ao solo.
A linha começa a se transformar em ciclo.
Nem toda matéria orgânica é igual
Entender esse processo também ajuda a evitar um erro comum: tratar qualquer material orgânico como se tivesse o mesmo comportamento no solo.
Não tem.
Uma folha recém-caída ainda tem um longo caminho de transformação pela frente. Um composto maturado já passou por boa parte desse processo. Uma serragem possui uma composição muito diferente de um esterco. Húmus de minhoca, tortas vegetais, palhadas e outros materiais também apresentam características próprias.
A origem importa.
A composição importa.
E o estágio de transformação daquele material também importa.
Uma das relações utilizadas para ajudar a entender essas diferenças é a proporção entre carbono e nitrogênio, conhecida como relação C. Os organismos envolvidos na decomposição utilizam carbono e também precisam de nutrientes, incluindo nitrogênio, para construir sua própria biomassa. Por isso, materiais com composições diferentes podem apresentar comportamentos e velocidades de decomposição diferentes.
Não precisamos transformar isso em uma aula de compostagem agora. O importante é perceber que dizer apenas “isso é orgânico” conta muito pouco sobre o que aquele material fará dentro do solo.
A pergunta é parecida com aquela que fazemos quando falamos dos minerais:
qual material estamos colocando ali e o que esperamos que aconteça com ele?
E onde entram composto, húmus, esterco e bokashi?
Na natureza, a entrada de matéria orgânica acontece o tempo inteiro. Folhas caem, raízes morrem, animais deixam resíduos e organismos completam seus ciclos.
Dentro de um vaso, o sistema é muito mais limitado. Boa parte dessas entradas depende do nosso manejo.
É por isso que utilizamos materiais diferentes.
O composto orgânico é produzido a partir da transformação controlada de materiais orgânicos até chegar a um produto mais estabilizado. O húmus de minhoca, ou vermicomposto, vem de um processo que envolve minhocas e uma comunidade de organismos, transformando diferentes materiais. Estercos são resíduos animais que podem fornecer matéria orgânica e nutrientes quando utilizados de maneira adequada.
O bokashi utiliza diferentes matérias-primas orgânicas submetidas a processos biológicos antes de sua aplicação, enquanto tortas, farinhas e resíduos vegetais acrescentam materiais com composições e comportamentos diferentes ao sistema.
Não existe, portanto, uma categoria mágica chamada “orgânico” em que tudo funciona da mesma maneira.
Assim como aprendemos a perguntar qual rocha estamos utilizando, precisamos aprender a perguntar qual matéria orgânica estamos colocando no solo.
Orgânico não é sinônimo de nutriente disponível
Aqui reencontramos outra ideia do primeiro pilar.
Ter um elemento no solo não significa que ele esteja disponível para a planta naquele momento.
Isso também vale para a matéria orgânica.
Um nutriente pode estar incorporado a uma folha, preso em uma molécula orgânica ou fazendo parte da biomassa de um organismo. Para continuar circulando pelo sistema, aquela matéria precisa passar por transformações.
Por isso, jogar cada vez mais materiais dentro do vaso não significa criar um solo cada vez melhor.
Dependendo da fonte, da quantidade e do estágio de decomposição, o excesso de matéria orgânica pode trazer desequilíbrios, inclusive excesso de determinados nutrientes ou condições inadequadas para aquele momento do cultivo.
Solo vivo não é uma competição para descobrir quem consegue colocar mais coisas dentro de um vaso.
É um sistema.
E sistemas dependem das relações entre suas partes.
Agora temos todas as peças
Começamos essa Jornada olhando para uma pedra.
Aquela pedra sofreu transformações e seus minerais entraram na dinâmica do solo. A vida ocupou esse ambiente, estabeleceu relações e começou a participar dessas transformações. Plantas cresceram, organismos se multiplicaram e, inevitavelmente, todos começaram a deixar matéria pelo caminho.
Agora temos os nossos três pilares.
MINERAL.
VIDA.
ORGÂNICO.
Só que estudar cada um separadamente cria uma ilusão que nunca existiu na natureza.
Eles nunca estiveram realmente separados.
O mineral entra na vida. A vida produz matéria orgânica. Organismos transformam essa matéria. Elementos retornam ao solo. Plantas absorvem parte deles. Novos tecidos são construídos. Folhas caem. Raízes morrem. E tudo começa a circular outra vez.
Foi preciso desmontar o solo para entender cada peça.
Agora chegou a hora de montar tudo novamente.
No próximo e último conteúdo desta série, vamos acompanhar o ciclo do solo e entender como mineral, vida e matéria orgânica deixam de ser três pilares isolados para formar um único sistema em movimento.

