VIDA: o segundo pilar do solo vivo

No último conteúdo, começamos nossa história muito antes de existir um cultivo. Voltamos para a pedra e vimos como água, temperatura, reações químicas, tempo e a própria vida participam da transformação das rochas e dos minerais.
Mas paramos justamente quando essa história começava a ficar interessante.
A rocha estava lá. A água também. Os minerais estavam sendo transformados e seus elementos começaram a circular pelo ambiente.
Mas como a planta chegou até ali?
Calma. Ainda temos alguns milhões de anos de história antes de chegar nela.
Antes da primeira raiz, a terra já tinha vida
Quando imaginamos a vida conquistando o ambiente terrestre, é fácil pensar primeiro em uma planta brotando no meio de um terreno vazio.
Só que não foi bem assim.
Muito antes das florestas, das flores e das raízes que conhecemos hoje, diferentes formas de vida microscópica já faziam parte dos ambientes terrestres. Entre elas estavam os fungos, cuja história fora da água, começou antes do surgimento das raízes que aprenderam a puxar nutrientes do solo.
Quando os ancestrais das plantas começaram a ocupar a terra firme, cerca de 470 milhões de anos atrás, eles encontraram um ambiente muito diferente daquele que conhecemos hoje. Não existia uma floresta esperando por eles. Muito menos um solo fértil, profundo e cheio de matéria orgânica como aquele que encontramos em muitos ecossistemas atuais.
Essas primeiras plantas também não possuíam raízes desenvolvidas como as plantas que conhecemos hoje. Conseguir água e nutrientes naquele ambiente era um desafio enorme.
E é aqui que os fungos entram na nossa história.
Evidências fósseis, genéticas e estudos com grupos de plantas atuais apontam para associações muito antigas entre fungos e os ancestrais das plantas terrestres. Nessa relação, o fungo conseguia explorar uma área muito maior do substrato e participar da obtenção de água e nutrientes minerais, enquanto a planta fornece compostos de carbono produzidos pela fotossíntese. Relações desse tipo são consideradas importantes para entender como as primeiras plantas conseguiram se estabelecer em terra firme.
A planta não chegou sozinha.
Uma parceria antiga que ainda acontece debaixo das nossas plantas
Milhões de anos depois, essa relação continua existindo.
Chamamos de ‘micorriza’ a associação entre determinados fungos e as raízes da planta. Hoje existem diferentes tipos de relações micorrízicas, mas a lógica geral ajuda a entender por que essa parceria atravessou uma parte tão grande da história das plantas.
O fungo desenvolve uma rede de filamentos muito finos, as hifas, que conseguem explorar o ambiente ao redor da planta. Isso pode ampliar o acesso a recursos como fósforo, nitrogênio e água. Em troca, recebe da planta parte do carbono fixado pela fotossíntese.
Então não existe um parasitismo, ou um abuso de uma espécie e outra existe uma troca, simbiótica, uma relação que os dois indivíduos ganham e não interfere negativamente um no outro.
E essa talvez seja uma das primeiras coisas que precisamos entender sobre a vida do solo: ela é feita de relações, sinalizações.
Algumas são cooperativas. Outras envolvem competição. Existem organismos que vivem associados às plantas, outros que decompõem matéria, outros que predam, parasitam ou disputam recursos.
Existe todo um ecossistema acontecendo dentro do solo, assim como acontece fora, alguns comem carne, outros comem plantas, pássaros comem carrapatos, a um equilíbrio e um controle natural muito sensível a mudanças.
E os fungos eram só parte dessa história
Quando falamos em vida no solo, entramos em um universo muito maior do que conseguimos enxergar.
Bactérias, arqueias, fungos, protozoários e diversos outros organismos vivem e interagem nesse ambiente. Além deles, o solo abriga organismos maiores, como nematoides, ácaros, colêmbolos, minhocas e muitos outros animais que também participam de sua dinâmica.
Cada grupo pode ocupar diferentes nichos e desempenhar diferentes funções. Alguns decompõem materiais, outros transformam compostos, alguns participam de relações muito próximas com as plantas e outros vivem boa parte da vida sem qualquer preocupação com aquilo que o cultivador gostaria que eles fizessem.
E talvez seja justamente aí que o solo vivo fique mais interessante.
Porque a planta não controla tudo aquilo.
Mas ela também não é uma personagem passiva nessa história.
Existe uma multidão vivendo ao redor da raiz
Conforme as plantas evoluíram, suas relações com a vida ao redor delas também se tornaram extremamente complexas.
Existe até um nome para uma das regiões mais importantes dessa história: rizosfera.
A rizosfera é a região do solo diretamente influenciada pelas raízes. Enquanto cresce, a planta libera diferentes compostos no ambiente ao seu redor, modifica condições químicas e interage com uma comunidade enorme de organismos.
É praticamente uma fronteira entre dois mundos.
De um lado, a planta.
Do outro, o solo.
No meio, uma quantidade enorme de relações acontecendo.
As micorrizas são um exemplo, mas não o único. Certas bactérias chamadas rizóbios, por exemplo, conseguem estabelecer relações simbióticas com determinadas plantas da família das leguminosas. Nessas associações, o nitrogênio atmosférico é fixado e convertido em formas que entram no metabolismo desse sistema.
Outros microrganismos podem participar da transformação de fósforo e de outros elementos presentes no solo. Há organismos envolvidos na decomposição, na ciclagem de nutrientes, na formação de agregados e em uma quantidade enorme de processos que acontecem abaixo da superfície.
Isso nos leva de volta à pedra do último conteúdo.
Lembra daquela rocha?
No primeiro pilar, vimos que ter fósforo, potássio, cálcio ou qualquer outro elemento presente em um mineral não significa que a planta conseguirá utilizá-lo imediatamente.
O ambiente precisa permitir que esses elementos entrem no ciclo.
Água participa.
O pH participa.
As raízes participam.
E a vida também.
Fungos e bactérias podem alterar o ambiente ao redor deles, produzir diferentes compostos e participar de processos que transformam minerais ou influenciam a disponibilidade de nutrientes.
Por isso, quando falamos que a vida participa da transformação da pedra em planta, não estamos dizendo que uma bactéria pega um pedaço de rocha e entrega fósforo na boca da raiz.
Estamos falando de uma rede de processos.
A geologia forneceu os materiais.
A química determina muitas das transformações possíveis.
A água movimenta elementos e permite que a vida resista.
E a biologia entra nessa história transformando o ambiente, estabelecendo relações e participando da ciclagem daquilo que está ali.
A partir desse momento, aquela pedra que conhecemos no começo da nossa Jornada já está no meio de uma história completamente diferente.
Ela entrou na vida.
Só que nem toda vida está do lado da planta
Esse ponto é importante porque falar em “microrganismos benéficos” pode dar a impressão de que existe um pequeno exército subterrâneo esperando para proteger nosso cultivo.
Não existe.
Assim como em qualquer ecossistema, no solo encontramos organismos que podem beneficiar uma planta, organismos praticamente indiferentes a ela e organismos capazes de causar doenças ou danos.
Alguns fungos e bactérias competem por espaço e recursos. Outros produzem compostos que interferem no crescimento de outros organismos. Existem fungos que parasitam outros fungos e existem microrganismos capazes de causar doenças nas próprias plantas.
É dentro dessa disputa que aparecem alguns organismos muito conhecidos no cultivo. Fungos do gênero Trichoderma, por exemplo, são utilizados em estratégias de controle biológico devido a mecanismos que podem incluir competição e interação direta com determinados fungos fitopatogênicos. Já Beauveria bassiana é conhecida principalmente por sua capacidade de infectar diferentes espécies de insetos e é utilizada como agente de controle biológico.
Mas não quero que você decore isso, só mostrando como a interação do ecossistema é bem complexa e o equilíbrio biológico não significa ausência de conflito.
A comunidade inteira está disputando, cooperando, consumindo, transformando e ocupando aquele ambiente.
A planta passou a fazer parte do solo
Agora nossa história já está bem diferente de onde começou.
Primeiro tínhamos a rocha.
O intemperismo começou a transformá-la.
A vida microscópica ocupou ambientes terrestres.
Fungos estabeleceram relações com os ancestrais das plantas.
As plantas se diversificaram, raízes surgiram e novas relações foram aparecendo.
O solo deixou de ser apenas um lugar onde a vida estava.
A vida passou a participar da construção daquele ambiente.
Só que existe uma consequência inevitável de colocar tanta vida nessa história.
Tudo aquilo que vive também deixa alguma coisa para trás.
Uma planta perde uma folha.
Uma raiz morre.
Um fungo completa seu ciclo.
Um animal deixa resíduos.
Um microrganismo morre.
E, pela primeira vez na nossa história, aquilo que estava vivo começa a se acumular, se decompor e se transformar naquele ambiente.
A vida começa a deixar matéria.
E essa matéria muda tudo.
É assim que chegamos ao nosso último pilar: ORGÂNICO.
No próximo conteúdo, vamos entender o que acontece com tudo aquilo que um dia esteve vivo e por que a morte de uma folha pode ser justamente o começo de uma nova história.


