O CICLO DO SOLO: agora precisamos aprender a cuidar dele

Chegamos até aqui desmontando o solo.
Primeiro encontramos o MINERAL e voltamos milhões de anos para entender como uma rocha começa a participar da nutrição de uma planta.
Depois encontramos a VIDA e vimos que fungos, bactérias e tantos outros organismos já participavam dessa história muito antes de existir uma floresta como conhecemos hoje.
Por último, encontramos o ORGÂNICO: a matéria que a vida produz, deixa pelo caminho e devolve ao ambiente.
Agora temos todas as peças.
Então podemos fazer uma pergunta diferente:
Como se cuida de um solo vivo?
A resposta começa entendendo que cuidar do solo não é apenas colocar coisas dentro dele.
É cuidar para que o ciclo continue acontecendo.
O nutriente precisa circular
Durante esta série, acompanhamos o mesmo elemento passando por lugares completamente diferentes.
Ele pode começar associado a um mineral, passar por transformações no solo, chegar a uma forma disponível, ser absorvido por uma raiz e entrar na construção de uma planta. Depois, pode acabar em uma folha, em um fruto, em outro organismo ou retornar ao solo junto com algum resíduo.
Quando essa matéria é transformada novamente, parte desses elementos continua circulando.
Olha como esse ciclo é bonito.
O nutriente não pertence à planta.
Não pertence ao fungo.
Não pertence à rocha.
Nem pertence ao solo.
Ele está passando por eles.
É por isso que a disponibilidade importa tanto quanto a quantidade. Podemos ter determinado elemento presente no solo e, ainda assim, ele não estar em uma forma acessível para a planta naquele momento. Da mesma maneira, quando a planta absorve um nutriente, esse elemento não desaparece do planeta: ele apenas mudou de lugar e passou a fazer parte de outra estrutura.
“nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” - lavoisier
e sim eu sei que eles estão falando de conservação de massa mas nutriente também é massa então deu pra entender.
Não queremos apenas colocar nutrientes no sistema. Queremos criar condições para que eles entrem, sejam transformados, circulem e, sempre que possível, retornem.
Só que todo sistema também tem entradas e saídas
Na natureza, esse ciclo nunca é completamente fechado.
A água pode carregar elementos para outras partes do solo. Gases entram e saem do sistema. Animais transportam matéria. Sedimentos se movimentam. Plantas e organismos incorporam nutrientes por períodos diferentes.
Ao mesmo tempo, folhas caem, raízes morrem, organismos deixam resíduos e novos materiais chegam ao ambiente.
Existe movimento o tempo inteiro.
A diferença é que muitos ecossistemas conseguem manter grandes quantidades de matéria circulando localmente durante longos períodos. Aquilo que uma geração de organismos utiliza pode se transformar em recurso para outra.
No cultivo, principalmente dentro de um vaso, nós interferimos diretamente nesse balanço.
Quando colhemos uma planta e levamos parte daquela biomassa embora, estamos levando junto os elementos presentes nela. Quando retiramos folhas, descartamos raízes ou substituímos todo o substrato ao final de um ciclo, também estamos retirando partes desse sistema.
Por isso, cultivar significa inevitavelmente manejar entradas e saídas.
Se retiramos matéria e nutrientes continuamente sem pensar em reposição, o sistema muda.
Foi isso que fizemos em muitos solos
Esse raciocínio não vale apenas para um vaso.
Ao longo da história, transformamos profundamente muitos ambientes para produzir alimento, construir cidades e ocupar território. Florestas e campos deram lugar a áreas agrícolas, estradas, pastagens e superfícies impermeabilizadas.
Na agricultura, a retirada de biomassa faz parte da produção: plantamos justamente porque queremos colher alguma coisa. O problema aparece quando as saídas, perdas e perturbações se acumulam sem um manejo capaz de conservar ou devolver ao solo aquilo de que o sistema precisa.
Práticas como revolvimento intensivo, manutenção do solo descoberto, baixa diversidade vegetal e retirada frequente de resíduos podem reduzir matéria orgânica, favorecer erosão e alterar comunidades de organismos do solo. A intensificação agrícola e determinadas formas de manejo também podem simplificar a biodiversidade subterrânea e modificar processos ligados à ciclagem de nutrientes.
O uso de defensivos agrícolas também não cabe numa frase simples como “agrotóxico mata o solo”. Os efeitos dependem do composto, da dose, da forma de aplicação, do organismo exposto e das condições ambientais. Ainda assim, o uso inadequado ou intensivo de pesticidas pode afetar organismos não alvo e funções ecológicas associadas ao solo, além de contribuir para contaminação ambiental.
E as cidades levam essa transformação para outro nível. Quando impermeabilizamos uma área com concreto e asfalto, alteramos o habitat disponível para os organismos do solo, a entrada de matéria e água e vários dos processos que poderiam acontecer naquele ambiente. A urbanização é reconhecida como uma das pressões sobre a biodiversidade dos solos.
Não significa que todo cultivo destrói o solo ou que qualquer intervenção humana seja necessariamente ruim.
Significa que manejo também faz parte do ciclo.
A partir do momento em que decidimos o que entra, o que sai e o que permanece naquele ambiente, passamos a influenciar seu funcionamento.
Então o que significa cuidar de um solo?
Agora podemos voltar para o nosso vaso.
Se aprendemos que minerais, vida e matéria orgânica dependem uns dos outros, cuidar do solo significa criar condições para que essas relações continuem acontecendo.
Precisamos observar a parte mineral, porque as plantas retiram elementos do sistema e alguns deles precisam ser repostos ao longo dos ciclos.
Precisamos devolver matéria orgânica, porque ela participa da estrutura, da retenção de água, da ciclagem de nutrientes e fornece recursos para a comunidade do solo.
Precisamos cuidar da vida, porque organismos participam da decomposição, das transformações dos nutrientes e das relações que acontecem ao redor das raízes.
Mas precisamos cuidar também do ambiente onde tudo isso acontece.
Água demais muda o solo.
Água de menos também.
Compactação reduz espaços por onde água e ar poderiam circular.
Temperatura, umidade, pH e aeração alteram as condições em que raízes, organismos e reações químicas acontecem.
Por isso, cuidar de um solo orgânico não significa apenas perguntar:
“O que eu preciso adicionar?”
Às vezes, a pergunta mais importante é:
“O que está acontecendo aqui dentro?”
Cuidar também é observar
Uma das maiores mudanças quando começamos a entender solo vivo é parar de enxergar todo problema como falta de algum produto.
Uma planta pode apresentar dificuldade de absorção mesmo quando determinado elemento está presente.
Um solo pode ter muita matéria orgânica e ainda estar desequilibrado.
Pode existir água no vaso e, ao mesmo tempo, pouca aeração.
Podemos adicionar uma fonte mineral excelente em um ambiente que não favorece seu comportamento da maneira que esperávamos.
Foi por isso que passamos quatro conteúdos entendendo as peças antes de falar sobre manejo.
Porque, sem entender o sistema, fica muito fácil olhar para qualquer problema e pensar apenas em adicionar mais alguma coisa.
E nem sempre é disso que o solo precisa.
Às vezes precisamos repor.
Às vezes precisamos parar.
Às vezes precisamos devolver matéria.
Às vezes precisamos melhorar a estrutura.
Às vezes precisamos apenas dar tempo para os processos que já estão acontecendo.
Manejo começa com observação.
Renovar não é começar de novo
Essa talvez seja uma das consequências mais interessantes de entender o solo como um ciclo.
Depois de uma colheita, aquele solo não voltou para o ponto zero.
Ele carrega raízes, matéria orgânica em diferentes estágios de transformação, minerais que não foram utilizados, nutrientes imobilizados em diferentes compartimentos, organismos e uma estrutura construída ao longo daquele cultivo.
Ao mesmo tempo, ele também passou por mudanças.
A planta retirou elementos.
Parte da matéria foi decomposta.
Nutrientes podem ter sido exportados na colheita ou perdidos por outros caminhos.
A estrutura pode ter mudado.
Por isso, renovar um solo não deveria significar simplesmente repetir a mesma receita que usamos quando ele foi montado pela primeira vez.
Significa tentar entender o que saiu, o que permaneceu e o que precisa voltar.
É uma continuação.
Não um recomeço.
O solo que termina um ciclo começa o próximo
Talvez essa seja a principal ideia de toda essa Jornada.
Começamos olhando para o solo como três pilares separados porque precisávamos entender cada um deles.
MINERAL. VIDA. ORGÂNICO.
Agora já não conseguimos mais enxergá-los dessa forma.
O mineral participa da vida.
A vida transforma o ambiente.
A planta absorve elementos e constrói matéria.
Essa matéria retorna ao solo.
Organismos a transformam.
Elementos voltam a circular.
Uma nova planta cresce.
E o sistema continua.
Quando cultivamos em solo vivo, nosso trabalho não é controlar cada uma dessas transformações. Também não é tentar reproduzir uma floresta inteira dentro de um vaso.
Nosso trabalho é manejar as condições para que o ciclo continue funcionando.
Adicionar quando existe motivo para adicionar.
Devolver aquilo que foi retirado.
Evitar perdas quando podemos evitá-las.
Preservar estrutura.
Manter matéria circulando.
Observar a vida que acontece ali.
E entender que a colheita não precisa representar o fim daquele solo.
Porque, em um sistema vivo, o final de um ciclo também pode ser o começo do próximo.

